
Como seres humanos normais, andamos sempre em direção oposta a culpa. Isso porque não queremos errar e, como é de se esperar, trabalhamos para que possíveis erros não se transformem em pesadelos.
Mas, como em tudo na vida há exceções, sempre encontramos aquele tipo de pessoa mais irresponsável e que jamais se sente culpado, pois acha que terceiros são responsáveis pelos seus atos danosos.
Conheço vários que agem com omissão e se justificam achando que a responsabilidade está sempre sobre o ombro do terceiro.
Esse assunto surge semanas após a tragédia do Morro do Bumba, que todos acompanhamos com pesar.
Como adoramos procurar culpados e deixamos de ser previdentes, vamos diretamente aos culpados, pela omissão ou pela ação.
Ora, aquele terreno era um lixão imundo, infectado e cheio de vetores de doenças. Foi sendo irregularmente ocupado por pessoas que não tinham onde morar. A ocupação foi tomando força, como sempre, e sob a cegueira cultural de governantes, governados, ONGs, igrejas, entidades, imprensa, etc e etc. Ninguém se sentiu incomodado.
Na hipótese louca de um chefe do executivo estadual ou municipal ter pensado e expulsar os favelados do local, certamente ONGs, entidades e a própria imprensa iriam achar isso e aquilo. Afinal, o conceito de casa e teto é muito superior à própria ignorância de viver pertinho da morte.
Assim, com todos omissos e vários medrosos, a população do Morro do Bumba foi crescendo e acabou enraizada no local, mesmo sob o risco de doenças, explosões por causa do gás e desabamentos.
Começaram as naturais e imprescindíveis cobranças: água. Alguém me disse, e acabei lembrando, que um helicóptero instalou uma caixa d’água lá no alto do morro nos anos 80. Reclamaram da falta de luz e a então Cerj (lembram?) instalou postes. Depois, reclamaram da lama nos acessos e a prefeitura asfaltou grande parte das ruas. Ônibus foram autorizados a circular pelas redondezas. Pronto! Foi criado o bairro sobre o lixo.
Tudo isso em um lixão que foi invadido por pessoas e que depois foi “urbanizado” pelos poderes públicos. Vai desalojar as pessoas? Quem tinha coragem e condições naqueles anos? É questão cultural e falta de responsabilidade de várias pessoas. De prefeitos, vereadores, deputados, governadores, autarquias, ONGs, imprensa...
Por fim, a culpa está no desrespeito às leis. Principalmente à Constituição, que tem no seu texto a ampla defesa da dignidade humana. Culpa-se também a invasão do terreno e os projetos eleitoreiros dos políticos. A cultura do jeitinho brasileiro, do “deixa pra depois” e da falta de respeito ao direito do próximo, leva às tragédias previamente anunciadas.
Bastou chover e a culpa desabou. E desabou sobre os atuais responsáveis que estão na fila das reclamações. Desabou nas costas dos omissos, nas costas dos homens.
Basta agir com razão e encarar os desafios com a firmeza que as pessoas de bem possuem.
Não deixem invadir. Não deixem urbanizar. Gritem pelo respeito às leis e punam os responsáveis.
Artigo publicado Jornal Diz - Niterói: